José Fabiano - Trovador

José Fabiano
*
PEREGRINANDO...


NOTA EXPLICATIVA

Por todo o ano de 1973, residimos, minha família e eu, em Uberaba, minha cidade natal.
Durante a permanência naquele abençoado recanto de Minas Gerais, aproveitamos a oportunidade concedida pela Providência Divina e convivemos com inúmeros irmãos, com quem muito aprendemos em assuntos doutrinários, e a quem mais uma vez externamos agradecimentos.
Nos sábados, à noite, dirigíamo-nos à Comunhão Espírita Cristã, com o fim de também participarmos das "peregrinações"do irmão Chico Xavier, conhecidas de todo o Brasil espírita.
A princípio timidamente, mas, em seguida, mais à vontade, encorajado pela bondade e tolerância do Chico e dos demais irmão, passei a recitar-lhes, nos intervalos das visitas aos lares, trovas que compunha em dias anteriores. Foi a maneira, a meu alcance, de demonstrar ao Chico a gratidão pelos benefícios que sua mediunidade me tem trazido, e, como a mim, à Humanidade
Daquelas noites tão ricas de prazer espiritual, permita-me, leitor amigo, relembrar episódio ocorrido em 3 de março. Havia lido, durante a "peregrinação", uma quadrinha em que expresso admiração por Cornélio Pires, na redação da qual procurei copiar-lhe o espírito. Ei-la:
     
            Penso, de tanto subires,
                  subires mesmo de fato
                  já não és Cornélio Pires,
                  mas és, sim, Cornélio... Prato!

Ao final da psicografia da noite, o Chico surpreendeu-me agradavelmente, com a leitura da resposta do Cornélio:

"Página ao Amigo Fabiano
                  Informo, contente e grato,
                  A você, meu caro irmão,
                  Que não sou Pires, nem Prato,
                  E sim Cornélio do Chão."

Com o passar do tempo, crescendo o número de trovas, ocorreu-me a idéias de publicá-las em benefício de obras assistenciais espíritas.
Amigos, então, realizaram rigorosa seleção, e, afinal na noite de 6 de outubro, estavam escolhidas as 100 trovas que compõem esse volume, que sugestivamente se intitula PEREGRINANDO.
De todas, a título de curiosidade, informo que o Chico manifestava preferência pela seguinte:
                 
Deus me dê a boa sorte
                  de, no instante da partida,
                  ser esperado na morte
                  por quem me esperou na vida.

Ao Chico, certamente, Deus lhe dará a boa sorte...
Com o mesmo amor, que me levou a compô-las, enfeixo-as, leitor amigo, nesse livrinho, despreocupado quanto ao seu valor literário, na esperança de proporcionar-lhe alguns momentos de sadia distração.
Pois, no tocante a mim, meu irmão,
      Não sei como vou trovando,
      e nem se trovas eu faço.
      Só sei que, de vez em quando,
      sai do meu peito um pedaço...

                  Belo Horizonte, 1974, março
                             O Autor.

 ***

1
Nos quatro versos da trova,
como as pontas de uma cruz,
vou cantar a Boa-Nova,
a mensagem de Jesus.
2
Rixas que a vida renova
sempre acabam num empate.
Se alguém te serve de prova,
és, para alguém, um resgate.
3
Dá-me, Jesus, outros pés,
com que acompanhe teus passos,
para seguir-te através
dos infinitos espaços.
4
Há gente que em nada atua
e é notícia volta e meia.
Tem o destino da Lua,
que brilha com luz alheia
5
Deus me dê a boa sorte
de, no instante da partida,
ser esperado na morte,
por quem me esperou na vida.
6
A bússola mostra o norte,
e a rota é bem escolhida.
Jamais te esqueças da morte,
na jornada desta vida.
7
Dos cristãos martirizados,
eu difiro apenas nisto:
morro, sim, mas aos bocados,
por amor a Jesus Cristo.
8
Caridade patenteia
esta tese de renome:
como, de barriga cheia,
dar conselho a quem tem fome?
9
Lembre-se que a falta alheia,
que você tanto critica,
se nos outros fica feia,
em você linda não fica.
10
Se não tenho, não mereço.
Para quem vou reclamar?
Deus não esquece o endereço
de quem deve visitar.
11
Censura não concretiza
o Bem pelo qual se luta.
Escuta quem não precisa;
quem precisa, não escuta.
12
Se atirar pedras eu for,
que nunca as atire a esmo,
mas, antes, tenha o valor
de atirá-las em mim mesmo.
13
Quero morrer aos pouquinhos,
conformado, sem revolta,
para lembrar os caminhos
desta viagem de volta.
14
Quem, no trânsito da vida,
abre mão da preferência,
evita sempre batida,
nunca estraga a consciência.
15
Conserva sempre contigo
a palavra que conforta,
para dizê-la ao amigo
que bater em tua porta.
16
Pequeno, sei que sou eu,
no meu atraso terreno.
Mas Jesus, se viu Zaqueu,
foi por ele ser pequeno.
17
Infeliz de quem se canse,
por crer nas coisas divinas,
não no bem a seu alcance,
mas com questões pequeninas.
18
Não te lastimes jamais
por teus pesares terrenos.
Lembra que uma dor a mais
é sempre uma dor a menos.
19
A oração, eu a defino
de modo simples até:
carta que vai ao destino,
mas tendo o selo da fé.
20
Magoa falar de corda
em morada de enforcado.
Quem tagarela, recorda
muito mal já sepultado.
21
Nesta verdade atentai,
vós que perdestes alguém:
todo aquele que vem, vai;
todo aquele que vai, vem.
22
Quero ouvir a voz amiga,
no fim da vida que trilho,
que mais uma vez me diga:
"Seja benvindo, meu filho."
23
Jesus se deu de tal sorte,
para deixar-nos libertos,
que, mesmo enfrentando a morte,
manteve os braços abertos.
24
Há sempre um bem que transluz
nesse ou naquele fiasco.
Paulo só achou Jesus,
porque falhou em Damasco.
25
Nunca penses que tiveste
sorte injusta nesta vida.
O Destino, como a veste,
tem sempre a nossa medida.
26
É mais suave, afinal,
viver praticando o bem.
Não se carrega calhau,
para atirar em ninguém.
27
Não me excedo, se revelo
o que se vê diariamente.
A língua lembra um martelo
que põe na cruz muita gente.
28
Em nossa Conta Corrente,
sempre em saldo devedor,
os créditos são somente
os nossos atos de amor!
29
É nas noites mais escuras,
cheias de mágoas infindas,
que as estrelas nas alturas
rebrilham sempre mais lindas.
30
Quem tem amigo influente,
reparte os problemas seus.
Vamos, então, minha gente,
ser sempre amigos de Deus.
31
Cristo não se reproduz
tanto em nenhuma obra de arte,
quanto no amor que conduz
o consolo em toda parte.
32
Amigos dos que são nobres,
todos querem como os seus.
Seja amigo, então, dos pobres,
grandes amigos de Deus.
33
Amor é pai, nunca atrasa.
Caridade é mãe que lida.
Se o pai põe comida em casa,
é a mãe que faz a comida.
34
Fechar a boca é bonito,
por razões que não escondo:
não entra nenhum mosquito,
nem sai nenhum marimbondo.
35
Não há, nessa Terra nossa,
algo que seja absoluto.
Jabuticaba só adoça,
quando se veste de luto.
36
Não diga nada que fira
os ditames da bondade.
Muitas vezes, a mentira
é ato de caridade.
37
De dia, a gente faz prece,
lê o Evangelho, contrito.
Mas, à noite, se adormece,
tem cada sonho esquisito...
38
Lendo o Novo Testamento,
este fato sempre assoma:
curando em todo o momento,
Jesus não tinha diploma.
39
Que teria acontecido,
responde-me, se és capaz,
se Jesus fosse escolhido
no lugar de Barrabás?
40
Vou levando o peso enorme
das cruzes a mim impostas.
Só que elas não são conforme
o jeito das minhas costas.
41
Diferem muito os amores,
mas não diferem os "ais".
Há rosas de várias cores,
de espinhos todos iguais.
42
Aqui na Terra, não queira
o carro adiante dos bois.
Antes se espinha a roseira,
para dar rosas depois.
43
Cabra-cega, a vida inteira
a dor nos põe a brincar,
procurando alguém que queira
sofrer em nosso lugar.
44
Guarda o pranto que traduz
a tristeza que te invade.
Muita lágrima produz
a ferrugem da saudade.
45
Para a semente da crença
germinar no pecador,
quanta vez vem a doença
trazer o adubo da dor.
46
Nossa boca é que revela
o que vai dentro de nós.
Eis porque tanta mazela
surge por meio da voz.
47
Se a gente, num cumprimento,
a mão, um do outro beijasse,
talvez, de um gesto violento,
muita mão se envergonhasse.
48
O muito em troca do pouco,
não nos ensinam na escola.
Deus sempre nos dá de troco,
muito mais que a nossa esmola.
49
Na dor é que se prepara
a fraternidade humana.
Se o gozo às vezes separa,
sempre o sofrer nos irmana.
50
Toda a vez que a gente está
amando alguma pessoa,
mentira é verdade má,
verdade é mentira boa.
51
Eis, Senhor, a minha mão,
não sei como andar sozinho.
Ensina-me a direção
que me leve ao teu caminho.
52
Põe alto a fé que te anima
e que brilhe como um facho.
É vendo o degrau de cima
que se abandona o de baixo.
53
Nossa mana Caridade,
eu te quero tanto bem.
Não és igual à saudade,
não judias de ninguém.
54
Quantos de nós tem o jeito
da água corrente do rio,
revolvendo-se no leito
que não está ao seu feitio.
55
Pouca gente nota ou pensa
que quase sempre a virtude,
se aumenta com a doença,
diminui com a saúde.
56
Ó minha amada Esperança,
brincalhona e sorridente,
és um resto de criança
que fica dentro da gente.
57
Nem sempre o espinho é um mal,
ajuda à sua maneira.
Para a formiga, é degrau
na subida da roseira.
58
Deus, Senhor dos sofredores,
Pai de infinita bondade,
manda-me todas as dores,
menos a dor da saudade.
59
Se os filhos fazem cobrança,
não te lamentes jamais.
Também já foste criança
e agiste assim com teus pais.
60
Há muita gente que eu acho
semelhante à bananeira,
que solta apenas um cacho
e descansa a vida inteira.
61
Somos quais frações de amor,
sempre menores do que um,
sem ter denominador
que nos queira ser comum.
62
A gente fala em mistério,
mas mistério de verdade
é lugar sem cemitério
ou coração sem saudade.
63
Ninguém tem olho perfeito.
Quantas vezes não se ilude!
Na vida, só vê defeito.
Na morte, só vê virtude.
64
Deixa a língua sossegada,
falar do mal não convém.
A vassoura, quando usada,
sempre se suja também.
65
Ontem, tive um sonho lindo,
com Jesus assim falando:
"Cega é a Justiça, punindo,
e o Amor é cego, ajudando."
66
São feitas desta maneira,
de nossa vida, as metades:
de remorsos, a primeira,
e a segunda, de saudades.
67
Reencarnação, tribunal
sempre em sessão permanente,
a julgar o bem e o mal,
durante a vida da gente.
68
Comendo o fruto proibido,
Eva cobriu a nudez.
Por que ele não é comido
pelas Evas, outra vez?
69
Os que ante os longos cabelos,
criticam, não ficam mudos,
devem ter os mesmos zelos,
com seus erros cabeludos...
70
Num ponto de exclamação,
fui a ti com reverências.
Tu, porém, sem coração,
só me deste reticências.
71
Um fato a vida destaca,
que sempre a amar nos exorta:
o homem tem muito de faca,
quando amolado é que corta.
72
Quando em si a gente hospeda
a tristeza e o mau humor,
parece vinho que azeda,
perdendo todo o valor.
73
Oh, que cenas curiosas
dos casais agarradinhos.
Começam trocando rosas,
acabam trocando espinhos.
74
Frase posta em certos lares,
diria em forma diversa:
limpa os pés assim que entrares,
bem como a própria conversa.
75
Se meu juízo não falha,
penso poder afirmar
que a formiga só trabalha,
porque não sabe cantar.
76
A estrada, que nos conduz
aos braços do Criador,
passa por fontes de luz,
ajardinadas de amor.
77
Temperatura e moral
só incomodam a gente,
quando, sem qualquer sinal,
se transformam de repente.
78
Saudade não presta, não.
Não tem mãe, nem parentela.
Morando no coração,
coração não mora nela.
79
Não queira exigir amor,
em troca do bem que faça.
Pouca gente vê valor,
no bem que lhe dão de graça.
80
O orgulho, com sutileza,
pune quem na Ciência avança.
Por um pingo de certeza,
tira um mundo de esperança.
81
Entre elas há desafeto,
por um motivo preciso:
onde a Ciência põe seu teto,
a Fé coloca seu piso.
82
Se és sal da Terra, cuidado!
Contém o teu alvoroço.
Sê como sal refinado,
não sejas como sal grosso.
83
Um jeito humilde não basta,
como sinal de virtude.
Também a cobra se arrasta
e quem com ela se ilude?
84
Corrige, com suavidade,
a mentira onde apareça.
Pode um dia ser verdade,
basta apenas que aconteça.
85
A verdade sem disfarce,
haverá quem a prefira?
Café ruim de tomar-se,
sem o açúcar da mentira.
86
Ao viveres tua fé,
veja o carro, sem revolta,
que, com simples marcha à ré,
evita dar muita volta.
87
No templo da Humanidade,
ao viver o dia a dia,
encontro, na Caridade,
a sagrada Eucaristia.
88
Na cascavel, há quem note
a imagem do homem traiçoeiro.
Só que a cobra, ao dar o bote,
bate o chocalho, primeiro.
89
Perdão, renúncia sublime
ao desejo de vingança,
é pôr, na chaga do crime,
o bálsamo da esperança.
90
Aceita a prova qual for,
mas sem levá-la aos extremos.
Deus, como examinador,
é que sabe o que sabemos.
91
Guardarei qualquer talento,
no Banco da Caridade,
a bolsa de rendimento,
em prazo de eternidade.
92
A árvore, dando flor,
mostra os ramos à amplidão.
Depois, num gesto de amor,
oferta os frutos ao chão.
93
Deus me livre da ambição
acima da necessária.
Que eu faça, do coração,
a minha conta bancária.
94
Quero seguir a Jesus,
com minhas forças tão parcas,
pondo, no ombro, a mesma cruz
e, nas mãos, as mesmas marcas.
95
Que o rio do pensamento
escorra em leito seguro.
Rio algum fica barrento,
por correr em piso duro.
96
Quem o mendigo despreza,
por sua vida vadia,
não sabe como lhe pesa
a mão que estende vazia.
97
Assemelho-me à mandioca,
num defeito que não largo.
Toda vez que algo me choca,
surge logo o meu amargo.
98
Entender inda não pude,
por que motivo, afinal,
herda-se, em vez da virtude,
o pecado original.
99
Que vale ser a formiga,
que ao labor sempre se aferra,
se o lugar, onde se abriga,
fica debaixo da terra?
100
Se te sentes desprezado,
se ninguém vibra contigo,
lembra que tens a teu lado,
Jesus, o Divino Amigo.


***


CAIXINHA DE TROVAS


A LIRA OTIMISTA DE JOSÉ FABIANO


            Quem conhece o cidadão uberabense, funcionário público, espiritualista e poeta José Fabiano, residente em Belo Horizonte, sabe, em qualquer destas qualificações, que excelente pessoa é o próprio José Fabiano

            O público amante da poesia construtiva pôde, certamente, há dez anos, apreciar aquilo que ele mesmo reconheceu estar proporcionando a todos: sadia recreação, ao lançar seu livro de estréia literária – "Peregrinando..." Era uma centena de trovas muito bem feitas, cheias de vivência e de graça.

            Agora, obviamente superados os empeços de ordem econômica que a todos nos aflige, nestes tempos difíceis, ainda que animado pela boa acolhida que mereceu, aqui temos de novo o bom Fabiano, com uma nova centúria lírico-didática, intitulada "Caixinha de Trovas". Nela, o Autor se revela aquele mesmo poeta que analisa a vida com bons olhos e de cada coisa extrai uma lição. Deste modo, sempre lhe é possível – e quanto! – firmar um conceito poético novo sobre o velho tema – vida.. Falo da vida construtiva, ou melhor, filosoficamente da vida a construir neste mundo, para o merecimento ao justo salário no outro – aquele que é eterno e bom.

            Estamos aprendendo a conviver com a civilização tecnológica, já presente e conflitante. Em tal contexto, a arte literária fica parecendo um fenômeno cultural bastante singular para a pobre mentalidade utilitarista que vai prevalecendo...

            Não obstante, caro leito, se alma temos, sempre haverá lugar para a poesia na alma das criaturas. Ela estará na sua função primordial de corporificar a expressão e veicular a comunicação daquilo mesmo que Schiller conceituou como a força que atua, de maneira inapreendida, além e acima da consciência e que, no dizer de Geir Campos, nos dá uma visão de mundo, com as melhores palavras em sua melhor ordem.

            Abrangendo, pois, juntamente, o gênero lírico, pela expansão estética, e o gênero didático, pela análise ética, a poesia de José Fabiano ora reflete o sentimentalismo e a prudência, ora a crítica e a graça, mesmo em matéria por si grave e profunda.

            Pensando bem, até que ponto não podemos dizer, com Hermann Hesse, que os imortais não gostam de coisas que devem ser levadas a sério e preferem gracejar? A seriedade – diz ele – é uma conseqüência do tempo; consiste numa superestimação do tempo.  E, falando metafisicamente o autor de  "O Lobo da Estepe", na eternidade não há tempo; a eternidade não é mais que um momento, cuja duração não vai além de um gracejo...

            Mas o "animal triste" do velho Galeno de Pérgamo continua acreditando que o certo na vida é estar sempre sério, austero, preocupado e... triste! Pois eu lhe digo, leitor, que o homem, sendo o único animal que ri, é também aquele que nem sempre saber rir ou mesmo sorrir... Já o bom-humor (filho do otimismo e da tranqüilidade)  torna tudo mais fácil, suavizando os problemas; ajuda a viver , fazendo ver a vida com bons olhos.

            Por outro aspecto, cada um de nós, é, em verdade, a soma de suas boas e más qualidade. E, se alguém nos parece mais feliz, é porque sabe vencer a própria inferioridade, quantas formas e expressões dela existam. Só não é feliz quem procura ser infeliz. "A vida é boa..." – foram as últimas palavras de Machado de  Assis, e aí está a poesia de José Fabiano, com legítima receita para a cura da infelicidade e suas manifestações...

Uberaba – MG, 1.º de março de 1984.

Fausto De Vito


Professor de Língua Portuguesa
e Literatura Brasileira


 *
1
Com o amor no coração,
livrei-me de mal que tinha:
Minha voz, que era um trovão,
hoje é só uma trovinha...
2
Contenta-te com o que és,
sem inveja de ninguém.
Em ti, valem mais dois pés
que, na centopéia, os cem.
3
No mal contra que reclamas,
às lágrimas não dês rédeas.
Com o tempo, quantos dramas
se transformam em comédias!
4
Fazes o bem e, no entanto,
sofres tanto menoscabo.
Alguém já se tornou santo
sem o advogado do diabo?
5
Mania da humanidade,
com que me sinto infeliz,
é vestir a caridade
com a toga de juiz.
6
Entre as coisas que se dão,
a que custa mais a alguém
quase sempre é dar razão,
àquele que não a tem.
7
Na existência, muita vez,
é quando a gente tropeça
que nos sucede, talvez,
ir à frente mais depressa.
8
A bebida, que permite
enganosa alacridade,
depois de certo limite,
vira soro da verdade.
9
Ovelha do teu rebanho,
a fé, Jesus, como tarda
a ser, em mim, do tamanho
de simples grão de mostarda!
10
Quanta gente não se ilude
e como que se acostuma
a supor grande virtude
dizer que não tem nenhuma!
11
Na ajuda ao necessitado,
sugiro-te esta postura:
Não lhe dês pronto o melado,
antes dá-lhe a rapadura.
12
Talvez rireis ao saberdes
como me sinto em apuros,
se pousais os olhos verdes
em meus olhos já maduros!
13
Os fatos me dão apoio
e atestam o que te digo:
A mão que semeia o joio
não pode colher o trigo.
14
Caso um dia o homem consiga
a si mesmo conhecer,
duvido que ele então diga
que teve "muito prazer"...
15
A oração é como o salto
contra a lógica do mundo:
Vai em busca do mais alto,
quando parte do mais fundo.
16
As mãos numa chaga eu pus,
vislumbrando a fé perdida.
Tomé a teve em Jesus
e eu em minha própria vida!
17
Na maratona da vida,
uma coisa vi provada:
De Deus depende a partida;
de nós depende a chegada.
18
Se desejas ser feliz,
não queiras mais que o normal.
Ter muito bem de raiz
é raiz de muito mal.
19
Se tens que trazer à luz
pecados da vida alheia,
faze como fez Jesus,
escrevendo-os, sobre a areia.
20
Correio, por que me fazes
recordar quem não devia?
Carteiro, por que não trazes
minha carta de alforria?
21
Nos mimos que me fazias,
percebo hoje, ao recordá-los,
que eram, mamãe, tão macias
tuas mãos cheias de calos.
22
Dor, se não me dizes nada,
por mim embora inquirida,
por que te fazes lembrada,
quando te quero esquecida?
23
Quanta mão se desenrola,
dando ao mendigo surpreso,
com dez centavos de esmola,
dez cruzeiros de desprezo!
24
No que prevêem para a gente,
mesmo com coração puro,
há desejos do presente
mais que visões do futuro.
25
A justiça se assegura
de forma fatal e exata.
Quando o mal bate a fatura,
sai a dor na duplicata.
26
Formar tesouros nos céus!
Das exigências que encerra,
a que mais causa escarcéus
é diminuir os da Terra.
27
Papai Noel, descontente,
ao receber-me o recado:
pedi-lhe, como presente,
que me trouxesse o passado.
28
A gente, às vezes, se induz
a ser cirineu de alguém.
Mas busca pegar-lhe a cruz,
na parte que nos convém...
29
Escuta quem te aconselha,
mesmo te sendo inferior.
Há coisas que sabe a ovelha
e desconhece o pastor.
30
Vive tua devoção
sem excessos e extremismo.
Quem casa com religião,
tem filhos de fanatismo.
31
Há jovens que na roupagem
não ligam para a decência.
Usam tanga de selvagem,
mas sem lhe usar a inocência.
32
A saudade deve ser,
lá, no Além, aquele misto
da alegria de rever
com a dor de não ser visto.
33
Que me seja permitido
pagar o que fiz e faço,
não com a dor do gemido,
mas com a dor do cansaço.
34
Auxilia mais quem fica
na quietude de seu pranto.
Quem a dor demais explica
nem sempre padece tanto.
35
Se a consciência é tribunal,
com teu agir me convences
de que ela em ti ou vai mal,
ou vive em férias forenses...
36
Dispor o Evangelho em casa
é fácil ao moço ou velho,
mas é tarefa que arrasa
pôr a casa no Evangelho.
37
Amor há no coração
que é qual tal brasa apagando.
Se vai virando carvão,
surge a saudade soprando...
38
De Jesus, se me avizinho,
percebo a verdade amarga:
tão estreito é seu caminho
e a minha cruz é tão larga!
39
Ninguém sabe com que ardor
batalhas comigo travo,
se me chama de senhor
ela, de quem sou escravo!
40
Da memória de seus atos,
afaste erros e deslizes.
As lembranças são retratos:
Faça um álbum das felizes.
41
O amor não tem sobressalto
no tumulto da porfia:
Quando quer falar mais alto,
muitas vezes silencia.
42
De olho no custo de vida,
vivem meu filho e a consorte.
Velho, olho, em contrapartida,
bem mais o custo da morte...
43
Se tempo se perde tanto,
diga-me, aqui, ao ouvido:
Em que lugar, em que canto
posso achar tempo perdido?
44
Ser objeto é, com certeza,
humilhante e vexatório,
quer seja de cama e mesa
ou de fábrica e escritório.
45
Sempre que a dor me procura,
sou gentil qual um francês.
A ela cedo mesura
e aos outros... a minha vez.
46
Se pelo símio que queira
ser homem, risos esbanjo,
gargalhar não vou da asneira
de querer o homem ser anjo?
47
Na Fé que me traz conforto,
Às vezes, encontro escolhos.
Sem que eu já esteja morto,
insiste em fechar-me os olhos.
48
Lembro que, quando rapaz,
queria conseguir peito.
Agora, velho, ando atrás
é de conseguir respeito...
49
A vida me deu papel
a que desejo dar fim.
Quero ter menos de Abel
e um pouco mais de Caim.
50
A consciência em todos nós,
vejo por mim que tanto erro,
com quem não lhe escuta a voz
devia usar era o berro! 
51
A pose de muita gente
é vitrina para o mundo:
Tem quilômetros de frente
e milímetros de fundo.
52
A instrução é como arado
que prepara o coração,
para nele ser plantado
o jardim da educação.
53
Em luta de grande vulto,
meu livre arbítrio se cansa.
O mundo me quer adulto
e o Cristo me quer criança.
54
Vereis, quando a conhecerdes,
que não cometo exagero.
Seus olhos, embora verdes,
me trazem é desespero.
55
Quando a gente se endivida
com o empréstimo da idade,
quantos, no Banco da Vida,
são os juros da saudade!
56
Vê no pobre que te amola
o ensinamento que enseja.
na rua, roga-te a esmola
que a Deus imploras na igreja.
57
Não julgue pelo que diz
quem palestra com você.
Mobília só tem verniz
na parte que a gente vê.
58
Não creias ter sorte amiga,
se tens prazeres somente.
Quem doce apenas mastiga
pode apanhar dor de dente.
59
Quando sofreres o assédio
dos azares da existência,
melhor que tomar remédio
será tomar providência.
60
Na escola da humanidade,
ninguém aprende lição
sem o lápis da bondade
e a borracha do perdão.
61
A dor é como bandido,
destes que fazem assalto:
quem por ela é surpreendido
logo põe as mãos ao alto...
62
Ser feliz é pretensão
que em todos achamos justa,
satisfeita a condição
de não ser a nossa custa...
63
Das rebeliões, vê que o espelho
está no espectro solar:
Começam com o vermelho,
para no roxo acabar.
64
Nem todos os indolentes
são inúteis e imaturos:
madeira, quando em "dormentes",
os trilhos torna seguros.
65
Por fora bem-aparecido,
sou igual a cano d'água.
Por dentro estou corroído
pela ferrugem da mágoa.
66
De Jesus, o carpinteiro,
na morte, quanta ironia!
Findou-se preso ao madeiro,
obra de carpintaria!
67
Será a Terra, no futuro,
dos que tiverem cordura.
É da Lei que o menos duro
seja aquele que mais dura.
68
Por coisas que inda sucedem,
presumo não ser blasfêmia,
dizer que a serpente do Éden
era alguma cobra fêmea...
69
A gente imita o jornal
no erro que nos compromete.
Não é o bem, mas o mal
que de nós ganha manchete.
70
Com o lento envelhecer,
aprendi esta lição:
mais doído que morrer
é viver do coração.
71
Árvore em quintal vizinho
suja também o da gente.
Ninguém padece sozinho
perto de amigo ou parente.
72
Da Fé a Ciência não gosta,
por isso não vivem juntas.
Se a Fé consegue resposta,
a Ciência muda as perguntas.
73
As reencarnações são dadas
para que, em novo caminho,
possam as águas passadas
mover o mesmo moinho.
74
Tal qual Zaqueu pequenino,
quero também fazer jus
a encontrar, em meu destino,
árvore de ver Jesus.
75
Dá-se em mim conflito imenso
da Razão versus Instinto:
sou valente quando penso,
e covarde quando sinto.
76
É quase no fim da vida
que esta verdade percebo:
Felicidade é subida
que se tenta em pau-de-sebo.
77
Ante Deus, somos iguais.
Nenhum de nós Ele adula.
Diferente de outros pais,
Deus não tem filho caçula.
78
Se de teu filho és amigo,
quando tiver mais idade,
fala-lhe sobre o perigo
de só dizer-se a verdade.
79
O erro, que achas censurável
e criticas com ardor,
como se torna agradável,
quando ocorre a teu favor!
80
Mandando a carta da prece,
com destino à Divindade,
quanta gente não se esquece
do envelope da humildade!
81
Ninguém se livra de nada,
no refúgio das alturas.
Mangueira leva pedrada,
quando tem mangas maduras.
82
Quanta gente não assume
grande importância sem tê-la:
Vaidade de vaga-lume
que de noite imita estrela.
83
O amor sugere problema
às vezes bem complicado.
Num ponto é tal qual teorema:
precisa ser demonstrado.
84
No círculo, o amor se expressa
em sua essência divina:
não revela onde começa
e tampouco onde termina.
85
Filho pródigo, eu padeço,
pois a memória me trai:
Não me lembro do endereço
da morada de meu Pai.
86
Envelheço e, se o lamento,
é porque tenho motivo:
Vejo chegar o momento
de enfrentar a morte... ao vivo!
87
A ti, nos dias azedos,
rezo mais que o necessário.
As pontinhas de teus dedos
são contas de meu rosário.
88
Pelas migalhas que dás
aos deserdados da sorte,
não presumas que terás
um banquete após a morte.
89
Não negues benevolência
aos gestos intolerantes.
Quando alguém perde a paciência
quanta coisa perdeu antes!
90
Se "ser mãe é padecer
no paraíso", eu diria:
Ser pai é sentir prazer
em lhe fazer companhia.
91
Não dará o velho provecto
de olhar baço e merencório,
a qualquer igreja o aspecto
de ante-sala de velório?
92
Meu coração não se acanha,
quando chamado ao combate.
Quanto mais da vida apanha,
tanto mais no peito bate.
93
Quem fuma faz arremedo
que não deixa de ter graça:
menino chupando dedo,
dragão soltando fumaça...
94
Fiquei feliz na soneca
em que sonhei que era traça.
Morava na biblioteca
comendo livro... de graça!
95
Amor com amor se paga.
- Será dito verdadeiro?
Se for, tenho a impressão vaga
de meu bem ser caloteiro...
96 
Tenho sonhos de menino,
devaneios de garoto.
É assim que me defino:
galho velho que dá broto.
97
Ao vício de falar mal
se puderes vencer, vence-o.
Aos vivos dá, por igual,
um minuto de silêncio.
98
Ninguém consegue ocultar-se
com a máscara que atrela:
Ao escolher o disfarce,
a pessoa se revela.
99
Poucos na escada da vida
podem fazer a ascensão,
sem que muitos na subida
lhes sirvam de corrimão.
100
Há vício a que, por justiça,
não faço críticas rudes.
Por exemplo, é por preguiça
que tenho certas virtudes...

 ***
*

AO PÔR-DO-SOL      


 JOSÉ FABIANO, POETA MAIOR


 – Ser trovador é fazer trovas?
 – Não; ser trovador é fazer trovas como José Fabiano. Seus versos fluem como água de fonte, risos de criança, canto de passarinho; a fonte nem sabe que deita água; na criança, o riso é espontâneo e verdadeiro; o passarinho solta a voz da garganta, sem saber por que, nem como o faz.

É assim José Fabiano com sua lira: espontâneo, modesto, simples, verdadeiro, – água boa de se beber; riso cristalino de se ver; canto mavioso de se ouvir...

O autor destas cem trovas que enriquecem a arte difícil da síntese poética, deste filho caçula a quem chamou "Ao Pôr-do-Sol", um Poeta Maior, já nasceu grande. E crescer para ser Maior deve ter sido um processo tão fácil, que ele nem percebeu – uma quase magia...

Foi para mim tarefa complicada selecionar cem trovas para esta coletânea, colocada que fui entre trezentas ou mais (não sei ao certo) belíssimas criações suas, todas perfeitas e de alto valor em sua mensagem. Foi uma pena! Ele queria que "o Sol se pusesse" ao som de apenas cem trovas...

Em qualquer gênero, seja humorístico, filosófico ou lírico, o trovador nos mostra sempre uma preciosa jóia na simplicidade de quatro versos; quem conhece seu trabalho anterior – "Caixinha de Trovas" – por certo já imagina o que de agradável vai encontrar nas páginas que se seguem.

Obrigada, Fabiano! Ler "Ao Pôr-do-Sol" faz bem ao coração da gente, preparando-o para uma noite tranqüila e amena, num misto de sonho, humor e lições de sabedoria. Continue a nos presentear com sua inspirada poesia, que, sem dúvida, tem a proteção daquele poeta de Assis, que se chamou Francisco.

É por ser poeta também que você tem a glória de cantar e ser feliz.

A seu irmão trovador

legou Francisco de Assis
a glória de ser cantor,
ser poeta e ser feliz!

Lucy

Belo Horizonte – MG, janeiro de 1986.

Lucy Sother de Alencar Rocha

Vice-Presidente da União Brasileira de Trovadores – U.B.T – Secção de Belo Horizonte, MG.

         "Magnífica Trovadora" dos
         Jogos Florais de Nova Friburgo, RJ

        001
A trova, pequena e grácil,
leva a gente a se enganar:
mulher que parece fácil,
difícil de conquistar! 
002
Beijei-te sim! Não devia?!
A Regra Áurea desconheces?
Só fiz o que gostaria
que igualmente me fizesses... 
003
Quando estás a caminhar
na praia, invejo as marés,
que são desculpas do mar
para atingir os teus pés! 
 004
Há rapazes - basta vê-los -
que se tornam tetéias:
alongam os cabelos
e encurtam as idéias...
005
Há falhas na Terra, e a dor
disto nos dá testemunho.
Parece que o Criador
ainda está no rascunho...
006
Hoje, quando me procuro,
eu me vejo, desolado,
não no "jovem de futuro",
mas num velho já passado...
007
Vou pondo o paletó
as lembranças de meu fado.
Acho que as boas - que dó! -
coloco em bolso furado...
  008
Que compensação inglória
nos trás o aumento da idade:
a gente perde a memória
e ganha, em troca, a saudade! 
 009
É Deus quem fala e se expande,
na consciência que condena?
Como pode alguém tão grande
ter, assim, voz tão pequena?...
010
Se desejas comandar,
dos passos mede o tamanho.
O pastor não deve andar
mais depressa que o rebanho!        
 011
É verdade comezinha
que nos merece a atenção:
onde falha a "palavrinha"
é que surge o "palavrão"... 
012
Embora ela me distraia,
isto não posso evitar:
quanto mais encurta a saia,
tanto mais me alonga o olhar... 
013
Do alto de suas montanhas,
Minas se põe a cismar:
Tenho riquezas tamanhas!
Só me falta ter o Mar... 
 014
De mim meu bem ri de lado,
toda a vez que me rechaça:
devo ficar engraçado,
quando me deixam sem graça... 
 015
Por dois motivos, procuro
ver nosso amor acabado:
enquanto é teu o futuro,
apenas tenho o passado...
 016
Sua esposa quer carinho.
Moça ou velha, seja o mesmo.
Se você quis o toucinho,
agüente agora o torresmo...     
017
Devo ter culpa medonha
no Cartório do Desejo.
Só isto explica a vergonha
que sinto quando te vejo...
018
Trovo pelo meu caminho,
na mágoa que me desola,
imitando passarinho
que canta preso na gaiola.
019
Como tu ficas vaidosa,
quando mostro este defeito:
não posso ver-te jeitosa,
sem ficar todo sem jeito!...
020
Quando estou com meus netinhos,
sei que lhes faço maldade,
porque vou com os carinhos,
neles plantando a saudade!             
021
Sou velho e és jovem. Quem nega
ser nosso afeto um absurdo?
Acho que o amor te faz cega
e a esperança me faz surdo...
022
Dos meus natais infantis,
deste fato não me esqueço:
Papai Noel jamais quis
saber o meu endereço!...
023
No investimento do amor,
às vezes, a gente vê
a aplicação de uma flor
dar o lucro de um buquê!
024
Em lendas da humanidade,
a maçã tem sua vez:
com Newton e a... gravidade
e com Eva e a... gravidez!
 025
Em meio a lindos objetos
de uma loja encantadora,
fui ter desejos secretos
de comprar a... vendedora! 
 026
A minha idade futura
gostaria que assim fosse:
quando ficasse madura,
também ficasse mais doce...
  027
Ah, se eu pudesse voltar
à minha infância perdida
e de lá trazer o olhar
com que, ingênuo, via a vida!
028
Viver bem é, na verdade,
assim que a vida acabar,
levar consigo a saudade
que também pode deixar. 
029
Mostrarão progressos falsos
as cidades adiantadas,
enquanto houver pés descalços,
nas suas ruas calçadas! 
 030
Na prece, eu me desenrolo
e a Deus, vou em desalinho,
como a lhe buscar o colo,
chorando por Seu carinho...
 031
A vida nos faz propostas
de problemas e questões
de que, sabendo as respostas,
ninguém sabe as soluções.
032
Dela, embora me aborreça,
poucas vezes me lamento;
Seu defeito é ter cabeça
e não coração... de vento!
033
Admiro qualquer mendigo,
até mesmo o que me engana.
Quem mendiga traz consigo
a fé na bondade humana! 
034
O triângulo amoroso,
para causar tantos ais,
deve, de modo forçoso,
só ter dois lados iguais... 
035
As razões do coração
com que a gente se surpreende
bem as conhece a Razão;
apenas não as entende!
036
"Em roupa velha, remendo
novo é sem utilidade."
De um amor que está morrendo,
não adianta ter saudade... 
 037
Envelheço e, com o fato,
sinto os dias mais amenos,
A vida é como sapato:
quando gasto, aperta menos...
038
Ao "pensares" as feridas
em ti feitas, tenta o teste:
não as terás tão doloridas,
"pensando" nas que fizeste! 
039
Com meus netos quando estou,
esta certeza em mim cai:
depois que virei avô,
é que aprendi a ser pai... 
040
Do pecado original,
qual seria a conseqüência,
caso o primeiro casal
não tivesse descendência?   
041
Uma de minhas tristezas,
enquanto avanço em idade,
é ir perdendo as certezas
nascidas na mocidade!
042
Que o soneto não se mofe,
mas na Trova, sem desdouro,
cada verso é uma estrofe,
e o final a chave de ouro!
043
Poeta, por "mãe" não ter rima,
não se aflija nem se abata.
Entristece e desanima
é mãe não ter duplicata... 
044
Juntemos os corações
feridos pela saudade.
Podem duas solidões
somar a felicidade. 
045
Sobre as dúvidas que ajuntas
e que de lado são postas,
se não fazes as perguntas,
é que temes as respostas! 
046
Fazendo-o, faço escondido
o bem que tenho na idéia.
Sou um vaidoso inibido:
só quero Deus na platéia!... 
047
Morte, mistério ante o qual
os homens se quedam tontos!
Será o ponto final?
Serão, quem sabe, os dois-pontos?...
 048
Olhos baixos, na cidade,
não há nada que o distraia.
Pensei que fosse humildade.
Não é não! É minissaia...
 049
Não hajas de forma omissa
com quem te faça cobrança:
Sua "fome" de justiça
vira "sede" de vingança...
050
Se, às vezes, alguém te induz
a fazeres algo errado,
não estranhes, pois Jesus
até Ele! foi tentado...
051
Pastores tenho notado
com o estranho cacoete
de manejar o cajado
como se fosse porrete...
052
Portugal não fez maldade
maior entre as outras mil
do que trazer a saudade
e deixá-la no Brasil...
 053
A alguns "puros", sendo franco,
simpatia não concedo.
Polvilho também é branco,
mas costuma ser azedo!...
054
Quem lança a pedra primeira
nem sempre pratica o mal:
veja a festa costumeira
da pedra fundamental...
055
Na fila da evolução,
quem nos força a caminhar
é, muitas vezes, o irmão
que nos pisa o calcanhar...
056
Assim que pude, agarrei-a.
Levou-me à polícia! Ri-me...
Não deixarei a cadeia
sem reconstituir o crime...
057
Já que a dor ensina e é mestra,
gosto de ir por onde passa,
a fim de ouvir-lhe a palestra
e aprender lição de graça!
058
Faze branda a repreensão
na forma deste lembrete:
Se tens que "passar sabão",
procura usar sabonete...
 059
Os meus anos se sucedem
numa vida de canseiras:
poucos no Jardim do Éden,
muitos no das Oliveiras...
060                 
A saudade é feridinha
que nunca chega a sarar.
Quando se forma a casquinha,
a gente põe-se a coçar...
 061
Tal pensamento me acode:
Sob a pressão do Dever,
muitas vezes menos pode
quem parece mais poder!
062
Na igreja de bairro ou centro,
vejo o mendigo que chora:
cansou de pedir lá dentro,
passando a pedir cá fora...
063
A morada desconheço
de nosso Pai Celestial.
O Universo é o endereço,
a Sua Caixa Postal!
064
Da mulher que é convidada
a "dormir", sem cerimônia,
de fato a coisa esperada
é que padeça de... insônia!
065
Quem em si mudança aprova
de ninguém merece apodo.
O homem que não se renova,
tal qual água, cria lodo.
066
Acontece a muita gente
que sonha em vencer na vida:
só porque saiu na frente,
pensa que ganha a corrida.
067
Carroceiro, quem diria
fosse meu pai homem fraco?
Sim, puxava sacaria,
mas não era puxa-saco...
068
Talvez melhor se compreenda,
dizendo-se que a saudade
é como o imposto de renda
que deve a Felicidade.
069
Pormenor que me desola
e também me causa abalos:
a mão que nos pede esmola
tem vergonha de ter calos!
 070
Em templo antigo, olho o teto,
buscando Deus. Coisa estranha!
Em vez do Grande Arquiteto,
só vejo teias de aranha...
071
A gente se contradiz,
quando julga sem amor:
Faz a pose de juiz,
mas tem voz de promotor.
072
O homem que vira marido
recorda, em todas as horas,
que igualmente lhe é proibido
servir a duas... senhoras!
073
Na velhice, não se esconde
a mágoa que sobrevém:
a vida não corresponde
ao amor que se lhe tem!
074
O micróbio não me escuta,
e alertá-lo não consigo.
Deve ser a mesma luta
de Deus, ao falar comigo...
075
Conselho tem o momento
em que perde a utilidade!
É tal qual medicamento:
tem prazo de validade...
076
- Temos na morte a visão
de todo o nosso passado!
Meu Deus! Vou morrer, então,
certamente envergonhado...
077
O falso crente que assume
modos dos santos de antanho
lembra quem passa perfume,
sem antes tomar um banho...
078
Crescer nem sempre é vantagem,
é meu parecer sincero.
Por exemplo, acho bobagem
o "o" crescer e virar... zero.
079
Dizem a procriação
do pobre ser necessária:
aumenta a população,
a civil e a... carcerária!
080
Não atendo a conselho,
voltei à primeira idade.
Forcei o sinal vermelho
e atropelou-me a saudade!
081
É fábula diferente
a guerra internacional:
naquela, animal é gente;
nesta, a gente é animal!
 082
Com a cerca do juízo,
isola-te do pecado.
E, ao invés de arame liso,
prefere usar o farpado...
083
Quanta gente não se vexa
de entrar na casa divina,
apenas quando se fecha
a porta da medicina!
084
Disse-lhe "virgem", usando
ponto de interrogação.
E "virgem" fui reiterando
com ponto de exclamação...
085
Quanto à fé, talvez esteja
ainda o homem nos ensaios.
Se não, em torre de igreja
não poria pára-raios...
086
A conversa, quando a mágoa
impropérios desenfaixa,
escorre assim como a água,
buscando a parte mais baixa.
087
Preguiça, triste comparsa
das misérias da existência,
quantas vezes não se disfarça
com os trapos da indigência!
088
O que se passa comigo
deve ser coisa da idade:
o bota-fora do amigo
me bota dentro a saudade!
089
A Providência Divina
como nos parece vária!
Se para nós é sovina,
com outros é perdulária...
 090
Não creio em quem me apresenta
como Deus um Ser que ensaia.
Deus não nos experimenta,
porque não somos cobaia...
091
Aquela paixão carnal
tão comum na mocidade
se parece com jornal:
dura enquanto novidade!
092
Já lhe digo, com franqueza,
que mudanças traz a idade:
futuro vira tristeza,
passado vira saudade...
093
Teus seios, belos de ver,
vaidosos da pouca idade,
que desprezo mostram ter
pela lei da gravidade!...
 094                
Dirijo-me àquela jovem,
e ela, esperta qual raposa,
com palavras que comovem,
pergunta por minha esposa!...
095
As águas ignotas cinde-as
Cabral, cometendo ratas:
busca o caminho das Índias,
mas encontra o das... mulatas!
096
Não desejo ser grosseiro,
mas o rosto da vizinha
mais parece um galinheiro:
como tem pés de galinha!...
 097
A lei de Deus é de amor,
mas importa que se note
ser Deus o único credor
que não admite calote...
098
Não creio seja cruel
toda educação severa:
A borracha no papel,
para apagar, dilacera...
 099
Nada fazes e andas ancho,
dizendo-te assoberbado!
Fone só fora do gancho
também parece "ocupado"...
100
"A gente colhe o que planta."
Se tal coisa for verdade,
quando plantei mágoa tanta,
para colher a saudade?
*